Pular para o conteúdo
 
 
 

Circle pit: estudo explica por que rodas em shows giram para a esquerda

Avenged Sevenfold

Quem já entrou numa roda em show de metal ou punk provavelmente reparou: o circle pit quase sempre gira no sentido anti-horário. A questão, abordada pela Mundo Estranho, da Superinteressante, ganhou novas pistas com um estudo publicado em 10 de junho de 2026 na revista científica Nature Communications. Segundo a pesquisa, as pessoas têm uma tendência individual, pequena mas consistente, de virar para a esquerda quando caminham sem destino definido.

O trabalho, intitulado Individual locomotor bias drives counterclockwise motion in pedestrian crowds, foi liderado pela Universidade de Navarra, na Espanha, em parceria com a Universidade de Tóquio, no Japão, a Universidade Carlos III de Madri e uma universidade de Xangai, na China. O primeiro autor é o físico Iñaki Echeverría-Huarte; o engenheiro Claudio Feliciani, especialista em dinâmica de multidões, assina o estudo como coautor.

A descoberta aconteceu por acaso. Durante a pandemia de Covid-19, a equipe espanhola analisava vídeos de grupos de pessoas para estudar o distanciamento social e percebeu que os participantes giravam, em sua maioria, no mesmo sentido. De acordo com Feliciani, a preferência pelo giro anti-horário apareceu em 32 de 33 testes. No conjunto dos experimentos, cerca de 65% das pessoas se moveram nessa direção.

Para descartar a influência do grupo, os pesquisadores pediram a 209 voluntários que andassem sozinhos e livremente dentro de um cercado hexagonal montado com mesas e cadeiras. O padrão se repetiu. Os testes foram feitos na Espanha e no Japão, países com hábitos de trânsito e circulação diferentes, em espaços abertos e fechados, e incluíram crianças de creche, que ainda não aprenderam regras sociais de deslocamento.

Mão dominante, pé dominante e sexo não alteraram o resultado. Tapar um dos olhos com tampão também não mudou nada. O único fator que interferiu foi a idade: os mais jovens mostraram um viés mais forte, embora o estudo não tenha incluído participantes acima dos 30 e poucos anos. Hipóteses como a força de Coriolis ou o campo magnético da Terra foram consideradas improváveis.

Sobre a solidez do resultado, Echeverría-Huarte afirmou à PsyPost: "O viés é individual e muito robusto, mas ainda não conseguimos explicar sua origem". A melhor interpretação da equipe aponta para pequenas assimetrias no sistema sensório-motor. Em comunicado da Universidade de Tóquio, Feliciani resumiu: "O forte viés encontrado nas pessoas sugere alguma assimetria no nível biomecânico".

Na prática, quando muita gente divide o mesmo espaço, essa inclinação individual acaba definindo o rumo do grupo. Segundo Echeverría-Huarte, em texto divulgado pela UC3M, nem todos têm essa preferência, mas a maioria tem, e é ela que impõe a direção coletiva. É o que se vê numa roda de show: basta que a maior parte do público puxe para a esquerda para que todos acabem girando no sentido anti-horário.

A física das rodas já havia chamado a atenção da ciência antes. Em 2013, pesquisadores da Universidade Cornell, nos Estados Unidos, publicaram na Physical Review Letters um estudo feito a partir de vídeos de shows de heavy metal disponíveis na internet. O trabalho comparou o mosh pit a um gás desordenado, com pessoas se chocando ao acaso, e o circle pit a um vórtice organizado, que surge espontaneamente, sem ninguém no comando. A ideia partiu do então estudante Jesse Silverberg, que levou a namorada a um show de metal e, de fora da roda, ficou observando o movimento do público.

Os autores do novo estudo lembram que o mesmo sentido aparece em outras atividades, como as provas de atletismo e algumas corridas de automobilismo, disputadas no sentido anti-horário. Os próximos passos incluem testar o fenômeno em pessoas mais velhas, usar realidade virtual para controlar os estímulos sensoriais e investigar se outros animais apresentam algo parecido.

Compartilhe